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A “COPA DAS COPAS”: NO PAÍS DO FUTEBOL SÓ NÃO TEVE O FUTEBOL DO PAÍS

Inês Barbosa de Oliveira*

No país do futebol a Copa do Mundo só tem dois resultados possíveis: ou ganhamos a Copa ou perdemos a Copa. Perdemos a segunda Copa em casa e quase vimos nossos Hermanos rivais ganhá-la. Foi por muito pouco! Para mim, pessoalmente, preferia ver os Hermanos vencerem. E escrevi sobre isso em um dos inúmeros debates que a vida on line produziu durante os 32 dias da Copa do Mundo. Sábado, depois de mais uma pífia apresentação da nossa seleção, disse que “a Argentina ser campeã comprova a força do futebol como nós, sul americanos gostamos dele. Ela ganhar nos legitima, mostra que sabemos mais do que mostramos (nossa seleção) e que, apesar do poder dos ricos alemães com suas fortunas e possibilidades, esse jogo simples pode ser bem jogado por “pobres”, por “carentes”, por “pretos”, entre outros dominados do mundo. Será pior para o Brasil se os alemães ganharem. Vão querer nos impor disciplinas nefastas, regras de conduta detestáveis, normas contestáveis e, sobretudo, nos dizer que eles sabem fazer o que nós não sabemos. Só pra lembrar, mesmo ganhando amanhã, não chegarão a nós. Temos cinco copas”.

Vi-me ontem e nos últimos dias envolvida em um debate incômodo. Difícil defender nosso estilo de jogo depois de três copas do mundo sem que o futebol brasileiro fosse ele mesmo em nenhuma, depois da pior goleada da história das Copas, depois das apresentações lamentáveis de nosso time antes e durante a Copa do Mundo em casa. A Argentina não chegou a nos encantar em muitas das partidas, não fez muitos gols, não nos trouxe o Messi mágico, mas chegou à final e poderia tê-la ganho. Messi não foi mágico, mas foi suficientemente brilhante para capitanear as vitórias argentinas. E muitos outros dos “nossos” brilharam. Di Maria me encanta e impressiona, sempre. E há mais.

Sigo intransigente na defesa do nosso estilo e dos nossos direitos a não nos europeizarmos, de mantermos a paixão acima dos planos, as emoções acima das normas, os craques acima das táticas. Posso estar enganada, mas não imagino o Brasil sem um craque especial, nem a Argentina, nem o Uruguai. A Colômbia que tanto se destacou nesta Copa, veio desfalcada de Falcão Garcia, um craque símbolo, e apresentou ao mundo o maravilhoso James Rodriguez – artilheiro da Copa e autor de um dos mais belos gols que assisti no Maracanã em minha já longa vida de torcedora.

É esse encanto com a beleza do jogo – produzida por craques – que nos levou, pobres, colonizados, com economias frágeis e democracias idem, tão improvavelmente, tão longe. Se hoje eles, europeus, têm duas conquistas de copas a mais do que nós foi porque aprenderam nossos modos de jogar. A Espanha de 2010 e esta Alemanha de 2014 usaram o toque de bola como filosofia para nos vencer, para vencer nossos jogadores oprimidos por normas e imposições que, na busca de nos deixar mais europeus, nos roubam a identidade. Eles passaram a preferir jogadores talentosos, a formar jogadores com a meta de jogar bem, e

não com a de não deixar jogar bem, filosofia que outrora presidiu o futebol europeu. Arrisco-me a dizer que foi por abdicarmos de sermos nós mesmos, que temos nos saído tão mal. Foi por tentarmos nos europeizar que nos perdemos do nosso lindo e vitorioso futebol. Poderá a hecatombe da semifinal contra a Alemanha nos devolver nossa alegria, nossa forma de jogar com menos cabeças de área e mais armadores, com menos jogadores fortes e altos e mais jogadores talentosos? A verificar e um forte motivo para torcer.

Mas nosso estilo não perdeu tanto assim. Um balanço desta Copa precisa abarcar mais do que o fracasso do Brasil, por mais difícil que seja. Concretamente, a oposição entre estilos, em campo, não aconteceu. Alemanha e Holanda, não jogaram “à europeia”. Os alemães já não o fazem há duas copas. Quem o fez, pagou caro. Itália e Inglaterra morreram rápido diante da alegre e ligeira Costa Rica, com Bryan Ruiz, o jovem Campbell e seu grande goleiro Navas e do Uruguai, do “louco” Luizito Suarez – um craque que brilha tanto quanto intriga – e do brilhante Cavani, que enterrou uma Itália burocrática e inoperante. A Espanha, envelhecida e enfraquecida, não pôde conter o Chile de Alexis Sanchez e Vidal. Talentos envelhecem e prescrevem também, infelizmente. A Copa das Copas – tecnicamente superior às duas que a antecederam – foi também a Copa das Américas, mesmo com a vitória da Alemanha. Terá sido uma coincidência?

Creio que não. Este legado fica, e outros também.

O evidente amadurecimento profissional de nosso menino, Neymar, pode levá-lo a ser o craque que alguns acham que ele já é. A fatalidade que o tirou da Copa pode tê-lo salvo, considerando o que se sucedeu depois. Temo pelas consequências da humilhação sobre outras jovens promessas que estavam em campo como Oscar, Bernard e Willian. Mas temo ainda mais que o que estamos passando não seja tão pontual como pretendeu nossa Comissão Técnica nem tão facilmente solucionável. Pode ser uma nefasta consequência de escolhas do passado, que se não forem mudadas no presente – como o foram na Alemanha – pode nos impedir de reverter, no futuro, a situação desfavorável.

Entre muitas leituras das avaliações sobre nossa humilhante derrota para os alemães, Tostão – craque da escrita como foi no campo – alerta em sua coluna para o processo que deu origem ao futebol que hoje se joga no Brasil.

Argumenta Tostão que o Brasil desaprendeu a jogar coletivamente e que a qualidade do futebol vem sendo preterida em prol da ganância. Desprezamos o meio-campo, deslocando quem ali se destaca para o setor ofensivo. Resultado: chutamos da defesa ao ataque sem os necessários elementos de ligação, sem que a bola seja tocada com o carinho de um craque que goste dela e role sobre a grama. Se a Espanha venceu em 2010, deveu isso aos talentosíssimos Iniesta, Xabi Alonso e Xavi, meio-campistas. A Alemanha de 2014 é movida, primeiramente, por Schweinsteiger, Kroos e Özil e só secundariamente pelo seu ataque ou pela sua defesa. A Argentina, finalista

desta Copa, tinha uma defesa reconhecidamente frágil, mas com um sólido meio-campo, ficou quase 500 minutos em campo sem levar gols e dominou a maior parte de seus adversários, inclusive a Alemanha em boa parte da final de hoje. Enquanto isso, no Brasil, Thiago Silva e David Luiz são chamados a lançar a bola para Neymar. No jogo contra a Holanda era difícil até achar nosso meio-campo. Luiz Gustavo, Paulinho, Ramires e Oscar pareciam não estar lá. Numa espécie de “Onde está Wally”, procurávamos – nós torcedores – por eles, sem sucesso. Nosso meio-campo não protege a defesa, não faz a ligação defesa-ataque, não ataca, não tabela e não chuta. Como pode o país do futebol, o melhor futebol do mundo, ser reduzido a isso, ter em sua casa os coirmãos latino-americanos surpreendendo positivamente por se aproximarem do que fomos e não se repensar?

Há doze anos, depois de ler o livro de Eduardo Galeano “Futebol ao sol e à sombra”, escrevi sobre nossos craques e em oposição às táticas e normas aprisionantes que procuram domá-los. Parafraseando Glauber Rocha, nosso cineasta, chamei o texto de “Os santos guerreiros contra o dragão da maldade”. Lá já percebia, com medo, os modos como sorrateiramente o dragão ganhava território nos discursos e análises do futebol. Nada me parece mais atual e apropriado para definir a alegria que esta “Copa das Copas” deixou, por permitir ao futebol vencer a mediocridade, que veio, infelizmente, acompanhada da profunda tristeza de ver o Brasil representar a mediocridade, do que o que ali escrevi na ocasião.

Referindo-me a Galeano, anunciei ter-me descoberto acompanhada por ele na paixão pelo futebol e pelas “artes de fazer”(1) felicidades fugazes, que estão nos pés dos craques, e na dor de descobrir este mesmo esporte e a seus “santos guerreiros” cada vez mais cercados e cerceados por regras e ditames da tecnocracia, do capitalismo, dos ricos e dos poderosos, o “dragão da maldade” que procura, desde há muito, vencer os guerreiros da alegria e da paixão, tentando domar os craques com táticas e esquemas rígidos, com dinheiro e corrupção.

Defendia, com otimismo na ocasião, que a rebeldia da vida cotidiana, em mais uma de suas infinitas e permanentes incursões contra o sistema, evidenciava, na história e na vivacidade do futebol, uma das possibilidades que a vida ordinária tem de dizer não aos sistemas que pretendem aprisiona-la!

Continuo acreditando que é possível, que podemos nos salvar dessa maldição escolhida e mudar, e melhorar. Permaneço otimista, mas hoje mais reticente. E, contraditoriamente, tiro meu otimismo das necessidades do próprio “dragão da maldade”. O futebol no Brasil é um negócio de milhões, se for corretamente jogado, ou seja, com velocidade, talentos e beleza. Deixa de sê-lo quando se perde de si mesmo, como agora. Resta saber como podemos nos recuperar. Por onde começar e de que modo? Como ressuscitar uma galinha dos ovos de ouro assassinada pelos seus próprios donos?

Referencia:
1. A expressão é de Michel de Certeau, historiador francês que o utilizou-a em um de seus livros (A Invenção do cotidiano, Petrópolis, Vozes, 1994) demonstrando a não passividade dos chamados consumidores nos usos que fazem das regras e dos produtos que lhes são impostos pela ordem instituída.

* Profesora de la Universidad del Estado de Rio de Janeiro

 
   
 
       
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